Estudos de evolução humana na USP estão ameaçados de extinção

É com profunda tristeza que recebo nos últimos dias uma série de e-mails de colegas informando sobre a real possibilidade de encerramento do mais representativo laboratório de arqueologia do Brasil, e o mais próximo que a ciência brasileira permite chegar à antropologia biológica.

A antropologia brasileira, de modo geral, não aceita a presença de componentes biológicas em seus estudos [1], notadamente quando estes carregam o nome de antropologia biológica, evolutiva ou física. Mesmo a antropologia médica, é distorcida e reduzida a uma faceta pouco representativa do original, aqui renomeada como “antropologia da saúde”. A arqueologia brasileira, e em alguns casos determinadas áreas da medicina ou a genética evolutiva, é que abrem um mínimo espaço para o mais próximo que seria de uma antropologia biológica. Não temos antropólogas e antropólogos forenses, e não são antropólogas ou antropólogos quem identificam corpos, apenas para dar um exemplo básico.

As mesmas pessoas que sugerem todos os anos a ingressantes alunas e alunos em cadeiras de antropologia para “contextualizar” atividades que antepassados antropólogos, chamados de “clássicos”, promoveram em África e Ásia (e não somente) e que em tese permitiram parte da dominação de nativos por povos terceiros, não são capazes de “contextualizar” médicos alemães que vieram para o (sul do) Brasil antes, durante e depois das grandes guerras, em fuga, e reduzem toda a antropologia biológica, quer seja esta oriunda da “antropologia física” (diria médica) ou não, a “resquícios de experimentos nazi”. É uma evidente xenofobia antropológico-acadêmica.

Não vamos esquecer quem eram, por quem eram coletados, e principalmente onde e como eram “entrevistados” os “interlocutores” de Ruth Benedict que “falam sobre o Japão” [2]. Também não devemos esquecer o que o Sir, e aqui destaco, SIR Edward Evans Evans-Pritchard [3] permitiu e incentivou ocorrer nos territórios que hoje são distribuído entre múltiplos “países”, hoje construídas “nações”, constantemente em guerra armada e mortal pela nova forma de política que lá foi implantada. A questão do colonialismo, seja na África ou não, é complexa demais e um post aqui não seria suficiente, a lista de atrocidades que “autorias clássicas (ou não)” da antropologia promoveram é exageradamente vasta, sejam eles adeptos da antropologia “social” ou “biológica”.

Mas a incapacidade de ter olhares críticos ao passado (e principalmente ao presente e ao futuro), além da exagerada posse de conservadorismo e aceite por produção de ideologia contra a própria ciência que sugere praticar, é que impossibilita a sustentabilidade de qualquer mínima antropologia biológica no Brasil.

O Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP ultrapassa os trinta anos de existência, e ainda assim é promissor, pois é o único laboratório da América do Sul (e central) a produzir aproximações sobre a evolução humana sob uma perspectiva interdisciplinar voltada à paleoantropologia. É um dos únicos laboratórios no Brasil sobre evolução humana que se mantém preocupados na produção de discursos e materiais para o público não acadêmico sobre evolução, em uma cruzada sem fim e desproporcional contra os discursos e ideologias criacionistas propostos pelas igrejas neopentescostais e seus políticos no Brasil.  Um raro exemplo que cruza as ciências naturais e propõe diálogo horizontal com as ciências sociais e humanas, notadamente com aquela que mais o exclui: Antropologia. A reciprocidade francesa de Marcel Mauss [4] não foi capaz de atravessar o oceano junto com as teorias, que, ironicamente, na USP se permitiram crescer para influenciar a antropologia brasileira até hoje.

Walter Neves é o arqueólogo brasileiro de maior representatividade na atualidade, e está prestes a se aposentar. Ele é tido como o “pai” de Luzia, o mais antigo fóssil humano das Américas. O problema reside que na aposentadoria de Neves, não há (docente) responsável pelo laboratório, e a probabilidade do respectivo fechar é enorme, por dois motivos:

1 – É necessária a contratação de alguém (docente) para manter o laboratório. O que esbarra em um primeiro obstáculo que é o desinteresse da reitoria da USP em abrir novas vagas docentes.

2 – Ainda que a vaga seja aberta, ela necessitaria de ser realocada pelo Departamento de Genética e Biologia Evolutiva, ao qual está “pendurado” a uma “antropóloga biológica” ou “antropólogo biológico”, o que não deve ocorrer, dada a maioria de geneticistas e biólogos que o compõem.

Ainda adicionaria um terceiro problema, que é a ausência de candidaturas nos últimos concursos que foram abertos (todos no nordeste) para antropologia biológica, dadas as já citadas características da antropologia brasileira em tratar como monstro quem se pronuncie neste meio.

Em um último suspiro, Walter Neves, entre outras arqueólogas e arqueólogos brasileiros, pedem que haja algum envolvimento da comunidade científica neste sentido. Pedem que mensagens de apoio sejam encaminhadas ao reitor da USP (Marco Antônio Zago: [email protected]), com cópia ao vice-reitor (Vahan Agopyan: [email protected]) e ao atual chefe do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva (Luis Neto: [email protected]).

Walter Neves pode ser também contactado para dúvidas em [email protected]. A Associação Brasileira de Antropologia dificilmente se pronunciará, mas pode ser “lembrada” (via [email protected]) de seu papel enquanto mediadora político-científica da antropologia brasileira.

Referências

[1] GASPAR NETO, Verlan Valle. A outra face do crânio: antropologia biológica no Brasil hoje. Tese de doutorado em Antropologia. Niterói: UFF / ICHF. 2012.

[2] BENEDICT, Ruth. The chrysanthemum and the sword: Patterns of Japanese culture. Houghton Mifflin Harcourt, 1967.*

[3] EVANS-PRITCHARD, Edward Evans. The Nuer. Clarendon: Oxford. 1940.*

[4] MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac Naif. 2003.

* Há edições em português, de questionável qualidade. Recomendo versões em espanhol ou inglês.

Fontes: Múltiplas mensagens pessoais recebidas por e-mail.

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