É hora de ir embora

Se for possível, tente-se imaginar enquanto mulher, com uma formação antropológica, feminista e principalmente crítica. Algumas pessoas diriam: de esquerda. Considere que nesta projetada imagem é preciso academicamente tentar crescer em um país e universidade que financiam espaços tecnocráticos, machistas e conservadores. Cogite que isto possa explicar seus comportamentos e pensamentos. Ou no mínimo os permitir existir. Mas não deveria ser necessário explicar nada.

Passados não dois, nem oito, ou ainda dezesseis[1], mas exatos trinta anos em muitas lutas, resistências, adversidades e persistências contra todo tipo de boicotes enquanto professora é possível talvez se tornar docente titular, em uma universidade pública, gratuita e federal, no Brasil. Ao lado de sua companheira, em titularidade homônima. No mesmo dia. Na mesma cerimônia. O casal são as primeiras titulares em um departamento que nasce e morre na etnologia indígena, terreno este, onde você é e foi proibida de pisar, ou ousar aproximar ou investir tempo em pesquisa.

Há neste centro universitário inclusive uma licenciatura indígena, onde antropólogOs e historiadorEs ensinam estudantes indígenas a serem indígenas. É como o que acontece com filhos de lideranças da África naquela universidade fundada na primeira cidade que aboliu a escravidão (negra) no Brasil. É uma forma do neocolonialismo, interno enquanto contemporâneo, não horizontal como aquele feito sobre a África lusófona, é mesmo daquele para ter alcance e foco limitados ao escopo nacional.

Tente aceitar a ideia de ser proibida de dar aulas nesta licenciatura indígena por “pares” “antropólogOs”, pois pode “contaminar” com “esses discursos feministas” os “puros” indígenas. Nos corredores é possível ouvir “imagine uma liderança feminista indígena” e “se deixar vai ter guarani-kaiowa na marcha das vadias” ou “é por isso que proibiram elas (de entrar em territórios indígenas) no México”. Tente pensar em ser também proibida de dar aulas no curso de graduação homônimo ao departamento. Lhe sobram as outras ciências sociais, como o serviço social, naqueles lugares onde é praxe enviar substitutos para dar aulas.

Agora pense que há pouco mais de uma década que no Brasil é possível que estudantes negras e negros de camadas populares tenham acesso mais regular (ainda que praticamente inexistente) ao ensino superior gratuito via programas de ações afirmativas[2]. E que no departamento ao qual faz parte há inclusive um programa de pós graduação, em antropologia, não em gênero – como seria esperado – ou em etnologia indígena – como alguns desejam que seja reconhecido -, que aceitam não uma, mas quatro mais discentes anualmente que são livres de exames escritos para testar (a pretensão de) conhecimento etnológico como forma de ingresso à pós-graduação. Discentes cotistas. Na pós-graduação. Por uma corrida feita em dias não foi a primeira universidade do Brasil com tal proposta.

Pense que não na primeira, mas na segunda edição, talvez na terceira seleção, já entrem mais negras e negros do que as bolsas que estão reservadas a elas e eles, ou talvez as bolsas estejam reservadas as indígenas e aos indígenas, ou a quem sobre, e não com, elas e eles pesquise – ou diga pesquisar. Ainda bem que não há avaliação semestral, ou mesmo anual de produção científica. E então, como acostumadas e acostumados são as pessoas de camadas populares, notadamente negras e negros, é preciso trabalhar para se sustentar. Não há bolsas de pesquisa pra essa gente. Não há papais ou mamães em Sampa, BH, Brasília ou Rio enviando dinheiro também.

Pois bem, em trinta e cinco anos neste departamento, abastadas e abastados que são esta gente que diz estudar antropologia, papais e mamães sempre garantiram os apartamentos, os carros, as roupas e as festas de filhotes que não pagam para tirar um, ou dois, talvez três, diplomas de pós-graduação. Sempre muitos anos além do período regular. Afinal, essa gente tem tempo.

Com essa invenção recente no Brasil chamada de cotas raciais, no entanto, algumas vagas acabam por atingir estudantes que ainda que sejam negras ou negros, e que (hoje) já não sejam (mais) descendentes de militares, juristas ou médicos. E ai, a ideia de um curso vespertino em antropologia é questionada por esta gente que trabalhou de madrugada para poder cursar outro curso, também vespertino. Ou que trabalhou dois turnos para poder cursar o tal curso noturno. E nisto, pedem-se para docentes, formalmente, que dizem ser antropólogas e antropólogos, o esforço sobre-humano de ofertarem disciplinas em horário pós-laboral, “pelo menos as (disciplinas) obrigatórias”, para aquelas e aqueles que não recebem bolsas de “pesquisa”, poderem trabalhar, e não abandonar o curso.

Entre todas as quase trinta componentes docentes de um programa de pós-graduação em antropologia social, que recebe do ministério da educação um conceito 5 (entre 1 e 5), apenas uma professora altera o horário de aula para o turno noturno. Afinal, é mesmo importante participar da construção da disciplina no Brasil, e assim garantir que essa gente que lá não devia estar, que abandone mesmo, e vá trabalhar, por isso atender a demanda deste bando de pobres e favelados, desviantes, está fora de questão.

A professora, (in)felizmente é titular, então ministra aulas para o nível de doutorado, nível este que ainda não é permitido para aquelas pessoas que veem de famílias mais humildes. Não deu tempo. As ações afirmativas estão há tempo suficiente na universidade brasileira, mas não em nível de pós-graduação, e ainda não foram removidos tantos doppelgangers em muitos processos seletivos. Se nem quem “de índio entende” é possível a identificação em processos seletivos no tal departamento de antropologia, imagine identificar alguém de uma camada social baixa. São dois contextos sociais exóticos demais para essa gente que passa férias visitando amigos em Londres, Paris ou Miami falando das aventuras hiper-interpretativistas que espera sair a tradução para o português.

E ainda não houve tempo suficiente para no doutorado chegar essa gente pobre, mesmo que entre estes esteja a única pessoa a concluir um curso de graduação um ano antes de todas e todos aqueles que lhe receberam enquanto calouro. Alias, que dentre trinta discentes da turma que faz parte no mestrado tal recordista, passados dois longos anos é o único discente a nunca ter recebido uma única moeda do respectivo programa de pós-graduação. Devia ter ido logo tratar de populações tradicionais. Dizem que a negativa é que o tal aluno é aceito para apresentar trabalhoS em países, diria continentes, que são longes demais, em eventos, diria congressos, que são grandes demais, em associações, internacionais, que não aceitam materiais em língua portuguesa, nem espanhola, e muito menos traduzidos por terceiras partes, ainda mais para alguém que está apenas no mestrado. São lugares longes, mas tão longes que as alunas e os alunos de doutorado não conhecem aquelas negativas temperaturas.

As mesmas alunas e alunos de doutorados que no meio de outubro vão se lembrar de chamar as graduandas e graduandos, do mesmo departamento, para fazer monitoria voluntária naquele evento que não puderam organizar – porque não são competentes -, pois enquanto graduandos, mesmo que já noutrora graduados – algumas são doutoras -, são incapazes de tal esforço realizar. O mesmo evento, que no desespero de tanto dinheiro gastar, em tão pouco tempo, trouxe não uma ou duas, mas seis apresentações externas, algumas de fora do país. Para cinquenta ouvintes, metade diretamente no primeiro ano de estudo em antropologia a perguntar: Quem é essa Srª Malinowski?

Enquanto isso, discentes da turma seguinte de mestrandas e mestrandos, que desta passada história toda não conhecem um verso, permanecem em condição de ainda maior vulnerabilidade financeira, e precisam escolher entre trabalhar ou ter aulas, e por isso que a professora decide por dar aulas nas quintas e sextas-feiras a noite.

E já eram mais de seis horas da reunião sobre um grande projeto de pesquisa, por horas falando sobre políticas públicas para mulheres, e a procura por uma professora universitária negra e feminista – adianto: não há. O que há é uma interrupção, por um terceiro, para esclarecimentos e consultas… Quase uma audiência.

É que o vigilante, que também é segurança e porteiro, e principalmente terceirizado nestes tempos neoliberais – e de greves, ainda que inúteis em tempos pré-eleitorais de reitoria – solicita a chefia do departamento de antropologia que a tal docente não permaneça dando aula até o final do período noturno, 22:00, pois ele precisa ir embora. A esposa está reclamando, pois ele é o único homem que chega tarde em casa. Somente ele que fica trabalhando – até tarde. A mulher diz que o marido está na vadiagem.

Assim, peço que agora tente imaginar o absurdo que seria se uma professora que mudou o horário de aulas a pedido de um grupo de alunas e alunos – que não são seus -, mas que se compadece porque alguns precisam trabalhar, e que agora já não pode nem mesmo dar as aulas porque um porteiro temporário e terceirizado não quer trabalhar. Tente adicionar a causa que as alunas e os alunos que pediram a mudança de horário são aquelas pessoas que continuam a ter aula no período da tarde porque o restante do corpo docente não compreendeu ainda a urgência da situação.

Mas é o mesmo departamento que no ano passado fez um esforço tremendo para perder o único estudante indígena que ingressou no recente curso de graduação de antropologia, porque não conseguiu lembrar de convidar ele para ser bolsista em um dos 8 (entre 14), núcleos de pesquisa do departamento que tem a palavra indígena no nome. Sem dinheiro, sem amigos para visitar em Miami, o estudante simplesmente voltou para casa.

A universidade definitivamente não é para algumas pessoas.

É já são horas de ir embora. E nem são 22:00 horas.

Mas é que o porteiro tem que fechar a porta. E alguns porteiros tem Ph.D. em antropologia.

Fonte: Um dia de rotina em um departamento de antropologia no sul do Brasil.

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[1] O período mínimo para solicitação de ingresso na posição de professor titular de carreira no Brasil é de 10 anos.

[2] Ainda que haja uma lei nacional recente, algumas universidades possuíam políticas públicas previas e independentes.