Documentário “Belo Monte: Depois da Inundação”

Abordando aspectos de resistência e dos impactos socioambientais de mais este gigante do progresso que chegou onde antes havia paz e harmonia entre a sociobiodiversidade, o documentário “Belo Monte: depois da inundação”, dirigido pelo premiado cineasta Todd Southgate, proporciona uma importante reflexão sobre os caminhos distintos que, na última década, levaram à efetiva implantação, construção e funcionamento da quarta maior usina hidrelétrica do planeta.

Apresentando um histórico do desenvolvimento do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte desde meados dos anos 2000, a produção ressalta as evidências de abusos de poder e descumprimentos legais presentes em todo o processo. Foram interesses políticos e econômicos que permitiram que o projeto prosseguisse mesmo com evidências claras e denunciadas ao redor do mundo de violações dos direitos humanos. Conflitos, irregularidades, descumprimento de condicionantes e medidas de mitigação aos impactos socioambientais, nada disso foi capaz de frear o que a presidente Dilma Rousseff chamou de ‘projeto de desenvolvimento’. A um custo total de 30 bilhões de reais, Belo Monte prosseguiu frente a todos os obstáculos legais, éticos e morais que existiam em seu caminho aparentemente desconsiderando os custos sociais e ambientais que infringia. Era um ‘projeto de segurança nacional’ que aparentemente se sobrepunha a todas as outras necessidades inerentes a ele.

Belo Monte: Depois da Inundação (53 min/2016)
Direção: Todd Southgate
Produção: International Rivers, Amazon Watch & Todd Southgate
Narração: Marcos Palmeira
http://www.belomonteaftertheflood.com/

Pessoas vistas como empecilho ao desenvolvimento, histórias de vida varridas pelas águas que se acumularam no reservatório da usina. A realocação de famílias e comunidades tradicionais para residenciais urbanos, que teoricamente representavam algo benéfico e progressista, demonstrou ser um plano catastrófico na medida em que privava essas pessoas de sua conexão intrínseca com os rios e matas dos quais tiravam seu sustento. Belo Monte materializou-se impactando tanto a reprodutibilidade sociocultural das comunidades pesqueiras e indígenas no seu caminho, quanto a biodiversidade local em suas áreas de alimentação e reprodução, como é o caso dos peixes, por exemplo, ao longo da Bacia do rio Xingu.

No discurso de sua inauguração na data de 05 de maio de 2016 proferido pela então presidente Dilma Rousseff, Belo Monte teve destacados seus ‘ganhos sociais e ambientais’ sem que, no entanto, os mesmos existissem na realidade. Marcado pelas lutas por direitos pessoais e coletivos, o documentário é um elemento fundamental para reflexão acerca dos gigantes do progresso que já existem e que ainda podem vir a se propagar. Mais do que isso, proporciona uma inquietante necessidade de repensarmos hábitos cotidianos e sociabilidades tecidas em torno do afogamento da vida das matas e dos seus habitantes, dicotomias que a vida moderna é capaz de criar e que poderiam ser irônicas se não fossem irremediavelmente trágicas.