Destruição em Brasília

Desde o último (des)governo do PT, e diretamente do centro e de dentro do Palácio do Planalto, acolher vândalos é a ação padrão aos atos públicos de questionamento das falhas realizadas por quem está no poder.

Cerca de 10 mil pessoas estiveram diante do Congresso Nacional [1] em Brasília para questionar na última quarta-feira (30 de novembro), quem e o que fazem no legislativo. Parte dessas pessoas até pretendiam promover alguma pressão popular para compreender como deputadas e deputados tratavam e votavam as dez medidas contra a corrupção, que ocorreria na câmara dos deputados. O alvo era o senado, que promoveria a primeira votação da PEC 55 (proposta de emenda constitucional no senado de nº 55, antiga PEC 241 da câmara de deputados), a “PEC do teto”, que já tinha passado pela Câmara e alardeada como uma medida necessária para conter os sugeridos “ímpetos gastadores do governo federal”.

O ato, foi uma resposta bruta a tentativa de “movimentos sociais”, “entidades estudantis” e “sindicatos tradicionalmente alinhados com as greves, paralizações e manifestações de rua”, que tentaram se aproximar do sagrado local de manutenção de poder: Brasília. Após ser acionada a polícia [2], a ação terminou em vandalismo e depredação por parte dos invasores convidados policiais. Pelo menos dois carros foram incendiados e outros dois foram virados. Banheiros químicos e outras instalações da esplanada dos ministérios foram utilizadas como últimos recursos, em inúteis tentativas de sobreviver aos avanços de bárbaros descontrolados, armados com bombas, paus, escudos e seus cavalos, minutos depois de garantir que os invasores estrategicamente infiltrados na manifestação estivessem seguros, como de praxe, já fez similar em SP, no Rio, no RS, ou mesmo enquanto discussão em Brasília. Diversos ministérios, especialmente o da educação, também foram atacados pela polícia, variando desde vidraças destruídas até fogo ateado, sujeira e sacos de lixo. Coquetéis molotov também foram lançados pela polícia, como novamente, de praxe.

Enquanto isso, do lado de dentro do Congresso, mínimos parlamentares que conseguiram aparentear manter algum nível de lucidez, após anos de convivência com os seres que lá habitam há décadas, lembravam da realidade: “Esses garotos”, como descreveu o senador Lindbergh Farias, sendo massacrados pela polícia, ao invés da fantasiosa versão onde estariam destruindo o que viam pela frente. Senadores e deputados movidos pela mais pura sensatez (do conceito de democracia) chegaram a pedir que o Congresso abrisse suas portas para que o povo (ou participantes de uma óbvia e legítima manifestação popular, de quem só pedia saúde e educação, como na perfeita descrição do deputado Ivan Valente, do PSOL) pudessem participar nas galerias – especialmente do Senado, onde estava prestes a ser votada a PEC contra a qual queriam esclarecimentos.

Uma foto, que se tornou viral, simboliza esta votação:

 

Nada disso é novidade. Quando o PT ainda estava no Palácio do Planalto, acionar os policiais vândalos era a resposta padrão, diria planejada e precipitadamente, para potenciais atos públicos organizados pelo povo. Assim como o irmão gêmeo PSDB quando no governo, ou o amante PMDB também o faziam. Foi assim, por exemplo, quando foi sancionada uma lei contra manifestações, ou previamente quando esta foi considerada legal pelo Supremo Tribunal Federal. Dezenas de inocentes veem sendo feridos e covardemente assassinados pelos inconsequentes animais fardados. O governo chegou até mesmo a culpar as manifestações pela violência, ao mesmo tempo que tenta fazer passar a impressão que reduzirá a violência institucionalizada pela polícia.

Por mais que alguns parlamentares menos interessados na patrimonialização da corrupção brasileira, e por isso tenham dito por exemplo, no plenário, que os vândalos (dentro da manifestação) de terça (30 de novembro) eram, na verdade, infiltrados de outros movimentos “de direita”, é ainda inegável que a violência tem feito parte da retórica por aqueles que estão no antro do poder. Como esquecer do episódio promovido pelo governo PSDB na capital paranaense em 2015? Ou da surreal agressão de policiais contra indígenas em Brasilia em 2014? E de como a mídia global reporta o evento: “policial militar é atingido por flecha no pé. PM passa bem“.

Se Michel Temer “errou feio” quando falou em “instabilidade” no caso de uma potencial prisão ou condenação de Lula, ele não falou disso sozinho. O ex-presidente FHC também já deixou claro que “Lula ser testemunha é desmoralizante o suficiente [3]”. Uma admissão de continuidade e parceira entre PSBD e PT que, agora, todos aqueles que se dizem ausentes do partilhado e sustentado espaço de corrupção chamado Brasília (vulgo congresso) fazem questão de esquecer, como nestas recentes votações, que alegam ser preocupados com a corrupção, mas não hesitam de tentar incluir a “anistia ao caixa 2” no pacote anticorrupção. Uma resposta firme as múltiplas acusações de polarização política no Brasil, entre lá e cá, inclusive com chamados “inocentes” e “sem qualquer segunda intenção” ou “comprometimento” entre as tão distantes partes nos recentes eventos envolvendo o congresso e a presidência nacionais, atuais e passados. Dos últimos 20 e tantos anos. Talvez a responsabilização e prisão dos depredadores (me refiro as centenas na câmara, as dezenas no senado, nas dezenas de milhares disponíveis nas câmaras municipais e dos milhares nas assembleias estaduais, além dos 13000 prefeitos, vice-prefeitos e dos 50 governadores e vice-governadores) de nossa democracia, seria a única forma de dissuadir quem pensa poder vencer pela violência e pela destruição. O que houve na Esplanada dos Ministérios não tem nada a ver com discurso democrático ou metas para acabar com a corrupção, e neste sentido incentivar atos semelhantes por estes animais fardados ou não questionar como este é reportado pelos seus pares e corresponsáveis de terno e gravata da EBC é pura irresponsabilidade.

Adendo: Sugiro acompanhar como é midiatizado o “protesto” do dia 4 de dezembro. E como a polícia (não) age nesta singular forma de “protesto”.

Adendo II: Esta foto, do dia 4 de dezembro, não se tornou (ainda) viral. Não há violência. Aparente.

Notas

[1] O congresso nacional brasileiro é formado por uma câmara com 513 deputadas e deputados federais e um senado com 81 senadoras e senadores. Cada um dos 26 estados brasileiros contam ainda com uma assembleia legislativa com número variável de deputadas e deputados estaduais. Estas assembleias não fazem parte do congresso nacional.

[2] Em uma operação comandada pelo “coronel Lima”, da Polícia Militar de Alagoas e recentemente também da homolocal Secretária de Segurança Pública. No comando de uma operação em Brasília. O “coronel Lima” é conhecido de outros momentos e contatos históricos.

[3] O link aponta para uma versão “em cache” da notícia porque a revista VEJA removeu o conteúdo do ar. Desnecessário estender sobre as razões possíveis do conteúdo ter sido removido.

Fonte: Editorial da gazeta do povo. [Fixed]

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