Dando corpo a uma história, a princípio, sem lugar

Comecemos este ensaio com quatro versos de um poema inacabado, dedicado ao Novo Mundo:

Divina Poesía

[…] tiempo es que dejes ya la culta Europa
y dirijas el vuelo adonde te abre
el mundo de Colón su gran escena.
(BELLO, 1979, p. 20)

“Alocución a la poesía” é um fragmento do poema América, escrito por Andrés Bello (1781-1865). No conjunto, o poema expressa a abertura para um horizonte no qual o Novo Mundo começou a se descolar da Europa: a América, dada sua idade e circunstância, seria o lugar ideal para a construção de uma nova experiência que não florescera no Velho Mundo.

Essa oposição entre dois mundos remonta ao período do Renascimento e é anterior às Navegações. Aliás, deu-se no desenvolvimento do que se costuma chamar de Modernidade. A suposta cultura orgânica da sociedade medieval não daria conta de nomear essa oposição e seus conflitos. Assim, o Novo Mundo colocou para a velha Europa uma possibilidade de perspectivas, até aquele momento, não experimentada.

Para Bello, a Divina Poesia se dirigiria à América porque não precisaria lidar com uma tradição que, na Europa, estava gasta pelo tempo. Entretanto, a possibilidade de voo aberta pela descoberta de Colombo coloca uma questão: a problemática ligação entre essas duas culturas. A partir do momento em que europeus cruzavam o Atlântico, não iam de um continente a outro simplesmente. Atravessavam o tempo, trazendo um sem-fim de processos seculares que não teriam lugar na Europa.

Em seus primórdios, essa cultura universal “pela sabida frustração do idealismo abstrato diante da concreta acumulação do passado histórico” encontraria “uma oportunidade única nas terras virgens de um enorme continente, cujos valores próprios foram ignorados pela cegueira antropológica, aplicando o princípio de tabula rasa” (RAMA, 1985, p. 24). De tal modo,

Esse comportamento permitia negar ingentes culturas – ainda que elas tivessem de sobreviver e infiltrar-se de maneira dissimulada na cultura imposta – e começar ex-nihilo o edifício do que se pensar ser mera transposição do passado, quando na verdade foi a realização do sonho que começava a sonhar uma nova época do mundo. A América foi a primeira realização material desses sonhos […] (RAMA, 1985, p. 24)

Permito-me citar o trecho de Ángel Rama porque é significativo na relação entre o poema de Bello e a tradição do Renascimento como para o desenvolvimento do trabalho, além de exprimir o problema da cultura na América, que toma forma a partir da exclusão dos elementos presentes no continente. É partindo da concretização desse sonho que iremos nos defrontar com a organização do edifício cultural.

Nesse sentido, o primeiro momento seria entender como foi dada a incorporação da América ao Ocidente através da cultura europeia. O rompimento de uma antiga ordem abre espaço e tempo. Já no segundo momento, quando Bello escreve o poema, a questão passa para o desenvolvimento de uma cultura americana capaz de diferenciar-se daquela que a gerou – pretendo me dedicar ao problema dessa diferenciação.

Após a independência, o edifício cultural identificado por Rama seria repensado. Assim, seria necessário refletir uma ordem capaz de afastar o passado colonial e, ao mesmo tempo, aberta para o futuro. Se antes o sonho era sonhado por aqueles de fora, agora eram os americanos que sonhavam. Isso foi significativo diante do imperativo de encontrar lugar numa disposição entre a parte e o todo. Visto isso, ao voltarmos para o poema que abre este capítulo, encontramos uma entrada: a América que se descola da Europa tem seu passado cada vez menos latente. Contudo, o vislumbre desse passado era indesejável. Constatado isso, dentre as opções existentes, dirigir-se para o futuro era atraente. Moldar o sonho do porvir significaria dar sustento tanto ao passado desfeito como o alcançar da glória.

“Alocucción a la poesía” foi publicada em 1823 na Biblioteca Americana o Miscelánea de Literatura, Artes y Ciencias. Lançada em Londres, Biblioteca foi pensada por Bello e Juan García del Río. A partir dela, propunham uma reforma gramatical da língua castelhana, no intuito de facilitar o aprendizado da leitura e da escrita e, desse modo, garantir uma unidade entre os povos americanos. Entretanto, teve um número somente.

Um ano após o lançamento de Biblioteca Americana, o domínio espanhol chegava ao fim na América com a vitória da Batalha de Ayacucho, em 1824. Essa vitória é simbólica no marco da cultura americana e expressa o almejado caminho de autonomia política. Desse modo, percebemos a organização da cultura articulada à política. Isso ajuda a matizar o argumento, pois essa articulação esteve presente na forma assumida pelo futuro nessas sociedades.

Assim, ainda que a duração de Biblioteca Americana tenha sido breve, é possível constatar que a sistematização da cultura aconteceu primeiro do que a política, como também a organização de um cânon literário (CROCE, 2010, nota 2, p. 28). Ao estabelecer a independência literária da América, Bello abriria um caminho para atividades semelhantes à Biblioteca Americana.

É o caso, por exemplo, da Biblioteca Americana fundada por Pedro Henríquez Ureña e com o apoio do Fondo de Cultura Económica. Don Pedro reestabeleceria essa tradição intelectual, montando um programa editorial de alcance continental. Aqui, as figuras de Bello e García del Río seriam a inspiração, dados os seus trabalhos em consolidar um setor renovado de leitores americanos e divulgar a produção cultural americana entre os europeus (WEINBERG, 2014, pos. 105-116).

Vemos um exemplo da rearticulação entre o todo e as partes. Após a Independência, a questão seria reorganizar a nova dimensão aberta. A quebra do elo pôs em evidência a falta de passado e o desejo de ampliar a nova experiência lado a lado. A articulação entre o Velho e o Novo Mundo reapareceria, agora, num plano de formação de história e cultura próprias. Aquele sonho de uma nova época teria outro momento, com a possibilidade da América sonhar a si própria, porém, os limites logo apareceram.

O rompimento com a Europa era impossível. Primeiro, dada à dependência econômica. Em seguida, o limite seria sentido nas instituições transplantadas na América Política e cultura era herança da qual não poderiam simplesmente desfazer: língua, artes de governo e mercado eram parte de uma estrutura que vinculava a América ao mundo. A cultura americana conectava-se ao Ocidente através da cultura europeia.

Estamos vendo, aqui, a imagem de um continente que projeta sua definição e rompe com partes do passado – mas somente as partes que lhe são convenientes. Todavia, no caso de Bello, não se trata de romper com a velha Europa. Aliás, tal dimensão sequer esteve em seu horizonte.

Assim, seria interessante voltar à criação da Biblioteca Americana, por Bello e o colombiano Joaquim García del Río: na verdade, trata-se do prospecto de El Repertorio Americano(continuação da Biblioteca Americana). Publicado entre os anos de 1826-1827, também em Londres, traz a seguinte mensagem:

Años ha que los amantes de la civilización americana deseaban la publicación de una obra periódica, que defendiese con el interés de causa propia la de la independencia y libertad de los nuevos estados erigidos en aquel Nuevo Mundo sobre las ruinas de la dominación española (BELLO e GARCÍA DEL RIO, 2004, p. 21).

Portanto, ERA seria

una obra que, fuera de tratar de los asuntos literarios más a propósito para despertar la atención a los americanos, concediese un lugar preferente a su geografía, población, historia, agricultura, comercio y leyes; extrañando lo mejor que en estos ramos diesen a luz los escritores nacionales y extranjeros, y recogiendo también documentos inéditos (Ibid, p. 21).

Nas citações acima, creio que tenha validade a expressão civilização americana e o fato de ERA dar preferência a tudo aquilo capaz de produzir uma unidade cultural que, no âmbito político, ainda não teria se concretizado. Assim, o critério seria privilegiar o que referenciava a América, como também abrir seu espaço para uma produção estrangeira que pudesse dar informações sobre a civilização americana.

Daí a necessidade de uma civilização americana, que englobaria o maior número possível de povos. E, naquele Novo Mundo, por falta de instituições adequadas em manejar informações e experiências para plasmar uma unidade, ERA seria uma das formas possíveis. Havia na publicação e em textos literários informações de áreas distintas (e, às vezes, antagônicas), como também documentos inéditos. Todos reunidos criaram uma unidade para a história do Novo Mundo, enfaticamente erguido das ruínas espanholas.

É interessante ler ERA como tentativa de organizar uma massa de informações ainda dispersas sobre a América, juntando dados e documentos e procurando produzir um sentido peculiar à civilização americana. Assim, ERA daria “un lugar preferente a todo lo que tenga relación con América, y especialmente a las producciones de sus hijos, y a su historia” (BELLO e GARCÍA DEL RIO, 2004, p. 27), com

especial cuidado en hacer que desaparezca de esta obra toda predilección a favor de ninguno de nuestros estados o pueblos; escribimos para todos ellos, y el Repertorio, fiel a su divisa, será verdaderamente americano (Ibid., p. 28).

É fundamental entender como as informações foram unificadas para definir o americano. EmERA, Bello e García del Río armam as peculiaridades do Novo Mundo a partir de um espaço no qual elementos distintos se articulam, e essa articulação é crucial para o entendimento do argumento.

Desse ponto, ERA se converte numa espécie de arquivo que possibilita o acesso ao Novo Mundo. Assim, suas informações poderiam ser utilizadas e manejadas na forma de repertório em que a causa americana teria um conjunto de peculiaridades para ter sentido na história. Desse modo:

¡Felices nosotros si conseguimos, en premio de nuestras tareas, que la verdad esparza sus rayos por todo el ámbito del nuevo mundo; que la naturaleza despierte al ingenio de su dilatado sueño, y nazcan a su voz talentos y las artes; que a la luz de la filosofía se disipen mil errores funestos; que civilizados el pueblo americano por las letras y las ciencias, sienta el benéfico influjo de las bellas creaciones del entendimiento, y recorra a pasos gigantescos el vasto camino abierto al través de las edades por los pueblos que le han precedido (BELLO e GARCÍA DEL RÍO, 2004, p. 29).

entrando para a história através de um processo civilizador, em que o povo americano seguiria rumo ao futuro,

[uma] época dichosa, en que la América, a la sombra de gobiernos moderados, y de sabias instituciones sociales, rica, floreciente, libre, vuelva con usura a la Europa el caudal de luces que hoy le pide prestado, y llenado sus altos destinos, reciba las bendicinoes de la posteridad (Ibid., p. 29).

Nota-se a Europa como modelo. É o Velho Mundo que garantiria a existência do Novo. A moderação, sabedoria e experiência acumuladas com o tempo não poderiam ser descartadas. Assim, seria seguindo os passos da civilização europeia que a americana encontraria o seu próprio lugar no mundo.

As proposições de Crespo (2008) sobre o desenvolvimento do americanismo como campo científico ajudam a esclarecer o ponto acima. Interessado, a princípio, nas antigas culturas do Novo Mundo, o americanismo contaria com um tipo específico de intelectual, um erudito se ocuparia em montar coleções bem documentadas sobre os povos indígenas. Durante o século XIX, sobretudo, com a fundação de uma historiografia própria aos novos países, essas coleções foram sendo apropriadas e, em vários casos, esses eruditos deixaram uma massa documental que seria aproveitada pelos estados na produção de suas histórias nacionais.

O início da “americanística” esteve marcado por uma hibridez de disciplinas (história, antropologia, arqueologia, filologia). O que se pode notar é uma infinidade de tratamentos e metodologias que, em alguns casos, chegando a ser anacrônicos, contribuíram para uma imprecisão por falta de regras (CRESPO, 2008, p. 291).

Duas questões chamam a atenção: primeiro, parte do saber sobre a América se deu fora do continente e, segundo, isso seria ainda mais evidente quando notada a falta de instituições (arquivos, museus, universidades) adequadas para a organização e produção desse conhecimento.

ERA teria sido, num primeiro momento, um instrumento de organização da história, e o tipo de intelectual a que se refere Crespo se torna peça-chave no entendimento do argumento. Ao tratar especificamente do colecionista, aquela figura dedicada em recolher a maior quantidade de informações possíveis, desdobra-se a constatação de que tais figuras seriam responsáveis, também, por montar acervos documentais, bibliotecas e pela escrita da história. Assim, haveria um vínculo entre ofício de historiador e a paixão de colecionista (CRESPO, 2008, p. 308-309). Desse modo, creio que a importância desses colecionistas se dê, principalmente, pela criação de critérios para a seleção de documentos, como também pelo rigor em utilizar essa documentação para escrever a história da América Latina.

Bello (1978), num artigo de 1848 – conhecido como “Autonomia cultural de América”, discute qual o melhor método historiográfico para um contexto em que pouco se sabia a respeito da condição dos países naquele momento. Publicado originalmente com o nome de “Modo de escribir la Historia”, Bello opõe uma história filosófica a uma história narrativa. Está em jogo, nesse caso, o conflito entre duas posições. A primeira que deduziria o sentido geral dos acontecimentos a partir de modelos e, outra, de caráter investigativo, preocupada em narrar o “o espírito íntimo dos feitos de um povo, a ideia que expressavam, o porvir a que caminhavam” (BELLO, 1978, p. 9).

Há uma singularidade expressa nos acontecimentos em vez criar explicações enquadradas por modelos gerais – ponto muito próximo do exposto por Humboldt, em 1821, na sua conferência “Sobre a tarefa do historiador”.

Bello afirmava que um historiador teria a sua disposição uma imensa massa de documentos e histórias e poderia adotar o método de encadeamento filosófico dos fatos, fazendo um trabalho sobre documentos e histórias já investigados. Entretanto, no caso americano,

cuando la historia […] no existe sino en documentos incompletos, esparcidos, en tradiciones vagas, que es preciso compulsar y juzgar, el método narrativo es obligado. Cite el que lo niegue una sola historia general o especial que no haya principiado así (BELLO, 1978, p. 10).

Para começar, seria necessário juntar documentos e, a partir deles, construir uma narrativa. Assim, o sentido viria da forma dos documentos organizados. Tal como em ERA, a escrita da história seria uma operação de tornar inteligíveis as informações dispersas. O autor pergunta:

¿Queréis, por ejemplo, saber qué cosa fue el descubrimeinto y conquista de América? Leed el diario de Colón, las cartas de Pedro de Valdivia, las de Hernán Cortés. Bernal Díaz os dirá mucho más que [Antonio de] Solís [y Rivdneyra]y que [William] Robertson (BELLO, 1978, p. 15).

Nessas circunstâncias, as narrativas pessoais sobressaem ante obras de historiografia. E ele continua afirmando: “Interrogad a cada civilización en sus obras; pedid a cada historiador sus garantías. Esa es la primera filosofía a que debemos aprender de la Europa” (Ibid.).

Como em ERA, a Europa reaparece como modelo e inspiração. A História, além de auxiliar na construção de fatos, ajudaria a definir o que seria a América. Todavia, é necessário notar que nessas posições não existe rompimento com o passado. Ao contrário, é sempre a aspiração da América em realizar no futuro.

Essa dimensão do futuro é fundamental para perpetuar o passado. Por isso, os dados esparsos deveriam ser reunidos. Assim, tanto em ERA como nos modos de escrita da história vai se definindo um tipo unidade especificamente cultural, no qual novos elementos podem ser inseridos em sua composição. Visto isso, teríamos uma primeira definição da constituição dessa unidade. Cabe ver a sua montagem e como os sentidos produzidos vão sendo articulados.

1 El Repertorio Americano será citado a partir daqui como ERA.