Da produção acadêmica e da academia de produção

Dando continuidade ao que eu e Carlitos já viemos postando aqui na IberoAmerica¹, eu gostava de problematizar mais um capítulo das limitações que a (i)lógica da produção acadêmica em ciências sociais vem produzindo. Notadamente no tocante a qualidade x quantidade de materiais em curso de produção.

Por vezes acabo lendo teses antigas de antropologia, escritas duas, três ou quatro décadas atrás. Por vezes percebo que elas foram datilografadas. Aqui cabe lembrar que a extensão de páginas ou duração da pesquisa não diz muita coisa, mas a sua inexistência talvez possa dizer qualquer coisa. Algumas vezes estas teses são publicadas como livros. Normalmente estes livros tem dimensões ainda mais reduzidas quando comparados com as teses originais. Mesmo com a adição de material inédito. Construído depois da defesa.

Há trinta ou quarenta anos atrás eram comum as teses de doutorado (pelo menos em antropologia) que consumiam entre 7 e 10 (ou mais) anos de curso (e sobreviventes dizem que havia pesquisa nessa época). Em uma escrita desta pesquisa que ultrapassava as 600 ou até 800 páginas facilmente, mesmo quando olhamos apenas para as “adaptações” para livro. Isto era escrito em A4, hoje há inúmeras universidades que obrigam a conversão ao A5, formato que aumenta o número de páginas em 30%, sem aumentar a quantidade de texto. E como muitas universidades definem o tamanho dos trabalhos finais pelo número mínimo de páginas… Não eram raras, ainda naquela época do passado, teses que dependiam de dois tomos. Devido ao elevado número de páginas.

Hoje também, com o advento dos computadores, dos (caros) revisores (eu diria re-escritores) que são pagos, das necessidades de síntese (para permitir a (cega) banca “ler” a tese em uma manhã, graças ao acumulo de participações em bancas que pouco ou nada lhe interessam) o que se agrega é basicamente um abstract ao site da universidade.

A minha dissertação foi publicada exatamente um ano atrás e conta até hoje com incríveis 10 visualizações no repositório da universidade. Metade provavelmente foi eu. A cópia física disponível da respectiva está disponível em cinco bibliotecas² e nunca foram consultadas. Eu distribui doze cópias delas para docentes que colaboraram com a pesquisa, justamente para estimular a circulação. Há ainda uma cópia disponível online no academia.edu que conta hoje com 16 downloads e cerca de 100 visualizações. Eu garanto que o grosso destas visualizações são de integrantes de juris das infinitas bolsas de pesquisa que eu me candidato semanalmente³ quando acabam por buscar meu nome no Google. Minutos antes de emitir a lista final encabeçada com o nome que já conheciam e estava definido à partida da seleção que participei. Um outro tanto remete a coordenadores de grupos de trabalho em congressos de antropologia e os últimos provavelmente aos pareceristas “cegos” de periódicos.

Como alertado por Carlitos, no post já mencionado, ninguém lê estes materiais. O grosso das dissertações e teses de mestrado e de doutorado em antropologia sendo publicadas desde 2010 (nalguns casos desde 2000) podem ser resumidos a algo como:

Um arquivo em PDF, com menos de 200 ou 300 páginas (e em A5 que correspondem à 70% do número de páginas em A4, então 140 ou 210 páginas), com muitas citações diretas (normalmente muito longas) e a maior quantidade de anexos e imagens possíveis). Adicionam-se ainda longas listas de legendas e de siglas que nunca foram informadas no texto, ao tempo que esquecem de informar aquelas que usaram.

Ainda que informem que aquilo foi feito em 3-4, ou até 5-6 anos, aquilo foi feito em 1 ou 2 SEMESTRE/S, justamente aquele/s último/s sem bolsa, justamente aquele/s realizado/s já no período de prorrogação de prazo. Quando foi ameaçada ou ameaçado ser expulso do programa. Ou seja, é uma pesquisa que no máximo dos máximos começou a ser realizada, e precisou ser interrompida antes de ser concluída. Com resultados de algo que nunca foi pesquisado. E é basicamente por isso que são coisas (e não textos) que dificilmente alguém irá perder tempo lendo. Eu perdi. E me arrependo em certo grau.

E não, não se trata de um falso saudosismo de um tempo que não vivi4. É o problema de uma suposta “pesquisa” que se meteu há muito com a prima linda e loira “pra casar”, a bela e jovem “produtividade”, que mora no interior da vizinhança de “competição” (por bolsas), isto tudo numa relação construída sob os olhos cerrados do sogro que financiou o casório, um velho conservador conhecido como o “Sr prazo”.

O resultado não poderia ser outro: É uma produção que deixa de ser científica. Torna-se uma ciência de produzir. O problema é agravado por aqueles que de lá de dentro (da tal da academia) ao invés de criticarem a zumbificação da produção científica, se apropriam dos meios de produção e vampirizam-se dos produtores, seus alunos e orientandos. E estes, na expectativa de alcançar degraus ou posições na cadeia, se submetem a situações extremas.

Outros elementos que compõem este bizarro sistema de não-produção científica vão desde os servidores federais (vulgo concursados técnicos administrativos e em cargos de nível médio em geral) que entram em um mestrado (ou um doutorado) em área totalmente fora de sua área de pesquisa, formação ou interesse (e ai no caso da antropologia é agravado pelo zoológico que lá se forma ao alegarem alguma valorização e dependência de certa “interdisciplinaridade”5) visando unicamente incremento salarial e acabam tendo de produzir um ou mais textos, ditos acadêmicos, até aqueles senhores e aquelas senhoras que também buscando unicamente um incremento salarial (e passagens aéreas) resolvem se meter em comissões de bolsas, em pró-reitorias de pesquisa, em colegiados de curso, presidentes de associações “profissionais” e como revisores ad-hoc de periódicos “bem posicionados” nos famigerados indexadores científicos.

Se não há capacidade dos primeiros em produzir algo que seja remotamente científico (ou até interessante), ou movimentação dos segundos em criticar o sistema e interromper a falsa produção, abre-se espaço para o aparecimento de outros elementos, que vão desde os ghost writers de teses e artigos (também chamados de revisores) até os irmãos de criação autodeclarados tradutores, que devido a urgência pela internacionalização e baixa empregabilidade criam um “nicho de mercado”. Alguns artigos (ou livros) são publicados no estrangeiro antes de sair no próprio país, por exemplo. Por fim, ainda há a mítica criatura conhecida como “pós-doutorando”. Faz-se um pós-doc e no relatório geral percebe-se que variou-se de “experiência docente” – e em alguns casos em cursos de doutorado fora de sua área de formação – até a editoração de periódicos científicos e na administração de viciados projetos de pesquisa ou projetos de extensão para atender demandas no mínimo questionáveis.

De outro lado, com tantas funções que variam de cargos de direção à orientação de um sem fim número de estudantes, a tarefa básica (que é dupla: ensino e pesquisa) destes docentes acaba sendo terceirizada. A primeira via tutores e estagiários docentes (ou também teaching assistants, ou ainda por professores substitutos). Em todos os casos é a precariedade em voga. A segunda tarefa é “resolvida” via exploração, semi-escravização, roubo de ideias e direcionamento de pesquisa de discentes de graduação e pós-graduação para os seus interesses ou demandas pessoais. Em alguns – muitos – casos, apela-se novamente aos pós-docs. A hierarquia na academia vai criando mais e mais degraus, entre discentes e docentes, e depois entre os próprios pares.

Aquelas e aqueles que ousam questionar este sistema acabam sendo excluídos dos processos seletivos. Sejam para bolsas, sejam para cargos de docência. Dependendo do caso são também ostracizados nos congressos e nas associações científicas. Em alguns casos, como a relação entre a associação brasileira de antropologia e os programas de pós-graduação em antropologia isso pode significar uma invisibilidade existencial ou mesmo impedimento legal de se declarar ou agir como profissional. Consoante o tema de pesquisa, podem ser literalmente expulsos do país.

Lembro da última pergunta que fizeram na entrevista para ingresso no doutoramento que atualmente eu curso: Jefferson, você acredita que a sua pesquisa poderia ser feita em algum programa de pós-graduação em antropologia no Brasil?

A resposta foi sonoramente negativa. Tudo isso porque assim como no mestrado eu ousei investigar alguma coisa sobre a história da antropologia, no doutorado resolvi ir além e ouso investigar os projetos neocolonizadores de certa casta de antropólogas e antropólogos.

Não apenas somos forçados a pesquisar (e escrever) em grande quantidade e em curto intervalo de tempo, temos ainda de nos ater a temas que gerem hits e visitas nos sites das revistas “científicas” ou a temas que sejam interessantes para as fontes financiadoras.

A tendência é desde censura explícita até a definição de áreas prioritárias que tem pouco ou nada a ver com ciência. Obviamente que as ciências sociais e humanas não são áreas contempladas para este tipo de produção.

Sem esforço um bando de desesperados alteram as próprias definições e percepções sobre o que é ou não uma produção científica em ciências sociais, para receber o biscoito canino dos financiadores com gosto (e cheiro, mas nunca compostos) de carne. A capacidade crítica ficou debaixo do pote de ração. De lá não deve sair. Ou perde-se o direito à janta.

Estamos pensando para breve em organizar um dossiê sobre temas próximos, e sugestões são bem-vindos por e-mail ou nos comentários deste post. Estou preparando um material especificamente sobre o webqualis brasileiro, dando continuidade ao que já escrevi.

Notas

¹ Aos interessados em agregar, por favor, não se intimidem e usem o nosso blog comunitário.

² Bibliotecas das Universidade Federal de Santa Catarina, Universidade Nova de Lisboa, ISCTE, Instituo de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e no acervo da biblioteca do CRIA.

³ Sempre que recebo novos alertas de downloads eu confirmo, e de maneira geral as cidades são as mesmas. Além disso, esta situação de falta de financiamento abre precedente pra outro problema, que na altura correta será aqui discutido.

4 Isaac Asimov trata disso de maneira ímpar em um editorial chamado “Nostalgia” de 1983.

5 Incluo aqui um trecho (que eu fui obrigado a remover da versão final) de minha dissertação de mestrado que ilustra este ponto melhor:

“O próprio modelo frequentemente difundido de prática de uma suposta antropologia faz uso e é consumido por vícios de uma série de caixas-pretas (Ashby, The black Box, 1956:86-117) e de instituições (Deleuze, Instincts and institutions, 2004:19-21), ao invés de propor desconstruí́-las e questiona-las em suas descobertas diárias. Em uns tantos programas de pós-graduação no Brasil, sem qualquer dificuldade resume-se oito-nove em dez trabalhos de dissertação e de teses, assim como os infinitos papers que deles e para eles resultam, a uma ou mais de versões de: construções literárias e fabricadas de outrem; especificidades de abordagens consoantes uma determinada temática que é validada, -e apenas- por suas partes, como fundamentação teórica, sendo esta sempre acompanhada do não domínio ou total desconhecimento de uma sem fim quantidade de outras temáticas caras à antropologia, impossibilitando quaisquer diálogos ou produção de interseccionalidades; paternalismos e agenciamentos por “antropólogas e antropólogos” de sujeitas e sujeitos de estudo; exagero na propaganda de politicas publicas ou financiadores; e por fim as horríveis análises com discussão única e -alegada como – oriunda de outros campos do saber, com algum destaque para discentes em fuga da história, do direito, da psicologia e da sociologia (são também representativas as fugas das ciências da comunicação e da filosofia), que uma vez, inúteis e impotentes em seus próprios domínios de origem, literalmente rumam para a antropologia, que os acolhe sob alegadas e defendidas interdisciplinaridades, que se resumem na verdade a substituição, em uma espécie de proposta de assimilação (Leão, Nós e os franceses, 2014:629-630) as avessas, ignorando potenciais aprendizados e sugeridas trocas de saberes, quando sucumbe ao fagócito cientifico com o qual afirma e acredita estar em dialogo. É uma tentativa de limitar as três pontas da teoria da dadiva: dar, receber e retribuir (Lévi-Strauss, Introduction à l’œuvre de Marcel Mauss, 1968:33), em uma: receber, de outras disciplinas. Um empréstimo que não será́ devolvido. Pode ser interessante considerar a oferta de contra-dádivas a influências acadêmicas (Yáñez-Casal, O projeto sócio-antropológico de Mauss, 2005:114).”

Fonte: Reflexões produzidas ao longo de quase quatro meses de maturação.

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