Cultura e talento em profusão nas águas do Marajó "A música é muito forte, ela traz o novo né? E ela é capaz de revolucionar, cara. É isso”

Rio Mapuá, Ilha do Marajó. Foto: Felipe Jacinto, abril/2017.

Magno de Sousa Batista, jovem de apenas 21 anos, é um músico nato de extremo talento, oriundo da Comunidade Sagrada Família, uma comunidade tradicional ribeirinha às margens do rio Jaburu, na Ilha do Marajó, Pará. Começou tocando nos cultos dominicais da comunidade e apaixonou-se pela sonoridade das matas daquela região desenvolvendo de forma autodidata um talento musical cativante. Preocupa-se com o incentivo e a difusão da cultura musical no interior da Ilha do Marajó, maior ilha fluviomarítima do mundo, proporcionando conhecimento e diversão por onde passa.  “Muitos dos que participaram pela comunidade, hoje eu to com 21 anos, eu vou repassando esse conhecimento musical, do pouco que eu sei, eu vou formando outras pessoas pra tocar, pra que a comunidade não fique sem músicos.”

Durante a minha viagem de pesquisa do mestrado em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável (UFPA), pude conviver por aproximadamente 35 dias com os povos do interior do Marajó, ocasião na qual pude bater um papo com este promissor músico regional e aproveito, com seu consentimento e colaboração, para divulgar um pouco da sua história pessoal e trajetória pelas notas musicais e canções inspiradoras.

Qual é a sua relação com a música?

“A minha relação com a música é na verdade uma base muito forte que eu tenho, né? Por que através da música eu creio que aprendi a ser uma pessoa que consegue se engajar na sociedade, ela me proporciona vários conhecimentos, a gente vai conhecendo vários amigos e a minha relação dentro da música, ela me ajuda muito né? Eu vejo que ela ajuda também muitas pessoas que tão ao meu redor. Ela me traz muita leveza na alma, porque a música tá relacionada em tudo e como eu sou do interior, a música tá presente no silêncio, a música tá presente no cantar dos pássaros, a música tá presente no barulho das correntezas da maré…então há uma relação muito forte da música com a natureza e ela me proporciona grandes desafios porque através da música já pude viajar bastante, conhecer lugares que nunca imaginei e cada vez novos desafios. Então a música é muito forte, ela traz o novo né? E ela é capaz de revolucionar, cara. É isso.”

Magno
O músico Magno demonstrando seu talento na Casa Familiar Rural, rio Mapuá, Ilha do Marajó. Foto: Felipe Jacinto, abril/2017.

Como você vê a música e a cultura marajoara?

“A minha história na música começa aos 12 anos né, porque meu pai era coordenador das comunidades ribeirinhas aqui do Marajó, ele coordenava onze comunidades e havia uma grande necessidade de músicos né, que não existiam na época. Nas onze comunidades não tinha músico em nenhuma comunidade, daí meu pai me incentivou aprender a tocar só que não tinha professor e era bem complicado. O pouco que sabia não repassava todo aquele conhecimento, não tinha como eu saber, como repassar. Daí assistia muitos comerciais, com ajuda de uma revistinha ali, outra aqui, eu comecei a tocar.

Depois que eu comecei a tocar, aos 12 anos, eu era no caso a pessoa que mais tocava porque o meu pai fazia visita nas onze comunidades tradicionais ribeirinhas e eu era o único músico que ia acompanhar ele, né? Eu tocava e cantava as músicas regionais…ia, tocava, acompanhava, conhecia um pouco de cada comunidade. Depois que eu vi que havia essa grande necessidade eu comecei a dar aula de violão, mas só na prática né, sem formação nenhuma, da forma que eu aprendi. Eu tentei repassar o máximo de como eu aprendi e que o importante era tocar, fazer alguma coisa e não ter a teoria sem fazer nada. Então foi assim, eu comecei a passar uma semana em cada comunidade e fui deixando músicos, um aqui, outro ali, nada muito profissional, mas que dava pra tocar nos cultos e pras comunidades.

A música também me trouxe uma coisa muito tocante que quando eu comecei a dar aula, no caso, da forma que eu aprendi, através da audição e da prática, eu pude conhecer outras histórias, porque a partir do momento que as pessoas iam aprendendo, elas iam se abrindo mais, elas iam contando que a música pode transformar vidas, cara. A música é muito forte e aqui no Marajó eu vejo que há uma grande deficiência musical nos interiores, por falta de profissionais talvez, pra repassar esse conhecimento. Às vezes eu sei um pouquinho, mas eu me limito quanto a isso porque eu acho que não sou capaz de repassar esse conhecimento, então é muito pobre da parte musical e eu olho isso como um desafio porque eu me desdobro, saio de casa, passo semanas fora, mesmo sem ser um profissional, eu vejo que o pouco que eu repasso pro pessoal, pros jovens, eu vejo que faz muito efeito porque eles buscam logo alguma coisa em que se espelhar…então através da música eles acabam tendo um novo horizonte, assim como eu tive quando comecei. Eu achava que a música era uma coisa simples e, a partir do momento que eu busquei mesmo ao pé da letra, qual a importância da música pra mim, aí então eu percebi que vai muito além de tocar só porque ela tá presente em tudo, tudo que você fizer, a música ela tá sempre junto. ”

 Quais são seus sonhos?

“O meu sonho é poder estudar e escrever algo sobre a música, sobre a relação da música com a agroecologia, escrever a relação da música, a importância da música pro Marajó, entendeu?  A importância que ela traz não só pro Marajó, mas pro ser humano…de tudo que ela representa, de toda a relação que ela traz por trás de tudo e que, com certeza, é tudo. Então meu sonho também  é, através da música, desvendar  outros lugares como já tenho desvendado, como já tenho embarcado em novas aventuras, eu espero que a música me proporcione isso cada vez mais e tentar fazer uma revolução através da música. Assim como os grandes músicos, poder gritar, falar dos meus sentimentos, mostrar meus sentimentos através da canção e tentar falar de uma forma geral do que nós, a nossa região, no caso, busca, né? Tentar mostrar através da canção.”

 Qual a importância da música para você?

”Eu vejo a música como um porto seguro porque ela encaixa em diversas situações no dia-a-dia e se encaixa também nos vários sentimentos que o ser humano pode ter daí se eu tô triste tem uma canção praquilo, se eu tô alegre tem outra canção, se eu vou pra igreja tem outra canção, se a gente tá numa roda de viola com os amigos tem outra canção então a música tá presente em todas as situações do dia, né? Então ela é muito importante na minha história, nessa caminhada de músico. “