Corpo, Risco e Reflexividade: o caso da cirurgia plástica

No seu livro “Pureza e Perigo” Mary Douglas tem uma interessante passagem: para além de considerar o corpo como base para a compreensão simbólica da estrutura social, conseguida mediante a análise dos factores poluentes e tabus adstritos a uma cultura legítima que promulga a sua utilização, diz o seguinte no que se refere aos ritos: “os ritos públicos que tiram partido do corpo humano respondem apenas a preocupações pessoais, íntimas até.”. Considerando o rito como exemplo de afirmação de uma estrutura, como afere um dos teóricos clássicos desta área, Victor Turner, e extrapolando livremente o rito das sociedades ditas primitivas, associando-o enquanto prática de inscrição à cirurgia plástica, pretendemos discorrer um pouco em torno desta questão. Recordemos Douglas, antes de mais.

As noções de poluição estão ligadas a um esquema que hierarquiza o puro e o impuro, o quente e o frio, o cru e o cozido, conceitos tão caros à antropologia, enquanto termos que sustentam uma prática observada e seguida com consciência. Os ritos de instituição apelam à percepção produzida por actos com significado e cujo objectivo é conferir validade ao sistema de valores que lhe assiste enquanto texto legitimador de uma prática. Mantendo esta comparação abusiva, a cirurgia plástica mantêm este perfil simultaneamente estrutural e pessoal, ou seja, os tais “lugares estruturais” que Boaventura de Sousa Santos defende serem aqui pertinentes – a técnica permite operar modificações “mágicas” no indivíduo e surge assim como o tal sistema que fornece os textos de legitimação para a prática individual, reflexiva e, desta forma, congruente com as propostas de Turner de uma “fenomenologia do corpo vivido”.

Se nas sociedades ditas primitivas o rito envolvia a comunidade na generalidade e a observância do corpo permitia uma harmonização com esta última, nas sociedades actuais, de “individualismo colectivo”, as experiências individuais são postas em termos de comparação com as outras experiências também individuais, mas dos outros que nos são exteriores e semelhantes, e a que se chama de inter-subjectividade. A ritualização nas sociedades modernas passa pela constituição de relações simbólicas com o próprio corpo, charneira entre o indivíduo e a sociedade/estrutura/cultura, conexões essas que operam na base dos parâmetros da individualidade e da técnica.

Como sabemos, há registos muito antigos sobre as intervenções sobre o corpo que se referem quase sempre a uma modificação da aparência exterior por razões de ordem simbólica e ritual ou de cuidado individual, e que vão desde as mutilações e deformações às tatuagens rituais intencionais, para não chegarmos já à cirurgia plástica. A prova da realização desse género de práticas, apoiadas num conjunto de técnicas manipulativas, encontra-se em vestígios arqueológicos ou, hoje em dia, em populações ditas primitivas ou tradicionais, com toda a força cultural e estética. Evitando o juízo evolucionista, desde sempre existiu uma preocupação com a aparência externa mas actualmente nas sociedades ocidentais, e em resultado de um desenvolvimento cultural específico ligado ao saber médico e desenvolvimentos no campo da manipulação técnica que a cirurgia plástica é evidência, a noção de “reflexividade” adquiriu maior pertinência no campo da análise social e grande peso utilitário, conferido por um conhecimento específico acrescido, tornando-se factor de emancipação pessoal. O conhecimento a que nos referimos e que circula hoje em dia é aproveitado pelo indivíduo para construir uma imagem de si mais congruente com a sua individualidade, sendo que as mesclas de saberes são marca tácita de um ambiente que legitima o seu uso desde que se apoie em referentes universal e globalmente reconhecidos. As causas mundiais são localmente visíveis e a mediação que outrora era feita por estruturas de leitura são agora reformuladas individualmente. O indivíduo é centro de um universo exclusivamente seu, pois foi por si produzido. Vejamos o contributo de dois autores, Braudillard e Lipovetsky.

Braudillard discorre sobre a génese do consumo, ligando-o ao “cuidado de si” e consequente incremento subjectivo da “felicidade”, apontando simultaneamente que aquilo que se entende por “realidade” não é mais que uma “hiper-realidade”, fruto de um conjunto de simulacros que projectam metafisicamente o indivíduo para um patamar supra-relação social, fundamentado por uma série de “distorções de escala” que surgem como instâncias da“negação radical do signo como valor”; Lipovetsky, por sua vez, reitera que a idade moderna pode ser matizada pelos fenómenos da moda, que com aguda pertinência oferecem à percepção as características da sensualidade e estética individual da personalidade. Deste modo, o “individualismo estético” assume-se como primado da individualidade sobre o todo colectivo, nascido de uma dinâmica social preocupada com a localização visualizável da posição social, também ligada a valores religiosos que têm como preocupação a “boa aparência” necessária para alcançar o “reino dos céus”, e apoia-se numa ética hedonista e híper-individualista, iniciada nos anos vinte do século XX com o desnudar gradual do corpo pela moda desportiva. O triunfo do gosto estético pessoal sobre a posição social assinala a ruptura com as ideologias gregárias, tornando o homem em produto de si mesmo pela mistura e utilização subjectiva de estilos que permitirão alcançar um maior grau de individualidade, encenando o próprio corpo. Tal como a ciência, a moda racionalizou o poder e o projecto de construção reflexiva do indivíduo passa por uma negociação constante entre o que existe (estrutura) e o que se procura ser (indivíduo).

Num caso que estudamos, de uma pessoa que se submeteu a uma operação cirúrgica com propósitos estéticos, a sua ansiedade é explicada pela ruptura de um laço social afectivo muito forte, a perda de um filho, quebrando uma série de ramificações sociais, mas promoveu a construção de uma identidade pessoal ajustada às circunstâncias reais e práticas. O processo de modificação operado passou por uma reflexão situacional em relação à marcha cronológica, ligada a uma auto-narrativa e projecto de si, auto-realização entendida em termos de um equilíbrio entre oportunidade e risco. Essa pessoa procurou esquecer o passado transformando de forma contínua o presente, mesmo que o processo, em curso note-se, suscite os riscos por ela expressos.

Pensamos que a modificação cirúrgica do corpo circunscreve os eixos do corpo e o da consciência, circunstâncias inalienáveis de um processo de globalização cultural, o locus onde emerge uma actividade produtora de significados consciente do eixo diacrónico, da temporalidade e posição social atribuída, e sincrónico, das condições objectivas de transformação, a cirurgia plástica. Isto é, a construção da auto-identidade tem em conta as possibilidades e as inibições, e estas incluem-se na dimensão estrutural e corporal, um conjunto estrutural. O selfsurge como um repositório da experiência desenvolvida conscientemente dentro de uma cultura, e o referido conjunto estrutural liga-se ao conhecimento das possibilidades potenciadas pela disponibilidade desse conhecimento. Ou seja, a identidade é relacional e situacional, depositária de uma linha de argumentos que reivindica a utilização do termo “identificação” como factor da consciência de si enquanto tomada de atitude identificadora da posição social num determinado quadro social habitado por uma série de agentes.