A existência da velhice

Toda sociedade tende a viver, a sobreviver; exalta o vigor e a fecundidade, ligados à juventude; teme o desgaste e a esterilidade da velhice (BEAUVOIR, Simone de. A velhice)  Alcançar o fundamento interno de reorganização espacial, transgredir a disparidades do corpo, destruir criações e heranças emotivas e memorialísticas, conviver com a solitude, se emancipar,  se desconhecer, se reinventar. Envelhecer é ação da disputa derradeira – apesar de tantas outras ditas essenciais durante toda existência –, pois é corpo que teima em abrir os olhos, em pulsar, e despertar como signo de resistência. Beauvoir (1990) credita à sociedade uma visão que conduz ao fim, no não reconhecimento d@ idos@. E em contradição...

Terra deu, terra come1

O desterrado em sua trajetória cria elementos de resistências, aparatos simbólicos e pontes de comunicação com seu passado e futuro. Portais cósmicos, fontes vivas de água, yuyos curativos que ascendem seu papel enquanto exílio e banimento. Estar-se em exílio é criar internamente fronteiras. O desterro, que pode ser lugar de isolamento, também pode ser o lugar da calmaria. É também a força legal de imposição de permanência, é a força do Estado que lhe impõe a condição de exilado. Nessa dualidade, a textualidade encarna-se, e essa experiência – ao mesmo tempo interna e coletiva – forma fluxos de caminho, espaço e lugar de suas vivências. O documentário Terra deu, Terra...

108: Memória, afeto e vazio

A morte e um roupeiro vazio, são os elementos que projetam o roteiro de Cuchillo de Palo de Renate Costa. A marca da ausência física, só não é maior que as respostas, e incógnitas que seu tio Rodolfo deixou. Para sobrinha, sobrou apenas o recontar, de maneira íntima, a história de mais uma vítima que a ditadura deixou na América Latina. Em sua narrativa, o documentário revive de dentro para fora a ditadura paraguaia.  É contando, ou melhor, reconstruindo a memória do tio homossexual que se percebe a dedicação que a repressão de Stroessner realizou nesse grupo. Um olhar para trás, remexendo no armário vazio da memória de vizinhos e...

O presente que não existe, o silêncio que não se cala

O silêncio da espera. O silêncio no Deserto do Atacama, é o mesmo que no espaço sideral. Silêncio entre perdas e angústia. Silêncio do choro contido. Silêncio ao imaginar o momento findo, ou a vida nascente. Silêncio entre as palavras que engasgam. Como  também o silêncio encarregado de alimentar lutas internas, histórias de vida. Silêncio ao não ter resposta. E o intermitente silenciamento de um encobrimento. Nostalgia da Luz, de Patrício Gúzman, adensa a reflexão sobre as representações do passado. Seguindo pela história chilena passa por tempos pré-colombianos, atravessa século XIX, cai na ditadura militar, e caminha até o céu atual mirando modernos telescópios e os barulhos dessa trajetória. Mas,...

O tango que Ada cantava

[email protected] A primeira vez que vi Ada, não sabia quem era Ada. Sabia que era a única mulher na contracapa de um disco da coleção da minha vó. Ada numa foto em preto e branco, entre cinco outros cantores de tango. Sendo a única mulher naquela coletânea, era centralizada em si a dramaticidade que o tango tanto dissipa. Quando conheci o tango, ele só fez sentido ao encontrar a tez de Ada. O rosto que me faltava para entender o que se traduzia em melodias e letras. Ada, nessa foto, com lábios negros, bem desenhados, em close, com uma pinta charmosa na bochecha, a tez branca e os olhos –...