A carne e a luta

Sempre é bom repetir. Ao capital e aos capitalistas não interessam as gentes. Portanto, o que tiver de ser feito para que os lucros sejam sempre maiores, será. Isso acontece nos frigoríferos, nos bancos, nas fábricas, em todo lugar onde se produz mercadoria e onde se extrai a mais-valia do trabalhador. O jogo é sempre o mesmo: o trabalhador cria valor e os donos do capital usam seus truques para dobrar ou triplicar o lucro. Se isso incluir fraudar os produtos, usar veneno, plástico ou o que for, será feito. Bem como subornar funcionários, fiscais e etc…

Assim que o caso da carne podre, ou com papelão, e os casos de corrupção não são um raio num céu azul. É praticamente regra. O que acontece de fato, é que enquanto não são pegos, os capitalistas vão fazendo o que podem para ampliar os lucros, inclusive ilegalidades ou barbaridades, obviamente sempre amparados no estado que, para eles, nunca é mínimo. E esse tipo de fraude pode ser feito também pelos servos voluntários, aqueles que querem ser mais reais que o rei, e que, mesmo não sendo eles os donos do negócio, agem como se fossem, empregando os métodos mais sujos para garantir mais riqueza aos patrões.

Ainda no caso dos frigoríficos, outra coisa que precisa ser levada em conta é a ligação deles com a proposta petista/lulista/dilmista de país. Não tem nada a ver com teorias mirabolantes de conspiração. É a simples observação da realidade. O grupo que hoje governa o Brasil quer varrer da história o modo de governar proposto por Lula desde o seu primeiro mandato, que não era revolucionário, nem socialista, apenas um pouco diferente do que sempre foi praticado. Por isso essa política de terra arrasada e, é claro, que os aliados de primeira e última hora de Lula serão os mais focados. Destruí-los faz parte do jogo.

O Lula quando assumiu a presidência do Brasil não o fez apenas com a classe trabalhadora. Ele fez uma aliança muito clara com o setor produtivo da burguesia nacional. Não foi à toa que seu vice era um industrial tido como “bom moço”, o José de Alencar. Ao longo de seus dois mandatos, Lula prosseguiu com essa política de abrir espaço e crédito para um determinado grupo produtivo, incluindo aí empreiteiras, os frigoríficos, alguns agro-empresários e assim por diante. Uma espécie de proteção ao capital produtivo nacional e ao latifúndio industrializado, que se deu via os bancos de fomento.  Até aí morreu neves. Nada de novo no front. Era o lulismo tentando deitar com o capitalismo, buscando nesse grupo a proteção, já que a velha direita não iria engolir o sapo barbudo. Lula não fazia nada de errado. Apenas traçou uma política diferenciada da que vinha sendo praticada até então. Capitalista, dependente, tudo isso, mas com um forte apelo nacional. Ou seja, dava comidinha para as multinacionais, mas também engordava o capitalismo nacional.

Não é por acaso que, agora, com Temer no comando, todo o projeto lulista esteja sendo desmontado. Temer é a velha política de entrega total do país aos estrangeiros, com o apoio de grupos da burguesia produtiva nacional que aceitam ser apenas entrepostos das grandes multinacionais. Aqueles que não têm apego algum a coisas como pátria, ou mátria ou nação. Seu território é o movediço terreno da grana, venha de onde vier.

Então, que esses frigoríficos de gente que já foi aliada no projeto nacional de Lula estão sob o foco dos aliados de Temer, isso não tem dúvida. Assim como a Odebrech já foi flechada e a Petrobras.

Mas, que fique claro. Isso não quer dizer que não tenha havido crimes, subornos, corrupção, adulteração, fraude etc… Provavelmente isso aconteceu, pois é da natureza do capitalismo, seja ele nacional ou estrangeiro. Todos têm o mesmo sangue e o mesmo DNA.  Logo, não se trata de cerrar fileiras em defesa da indústria dita nacional, ou aos antigos aliados de Lula e do PT. As empresas capitalistas não merecem nenhuma lágrima por parte dos trabalhadores, porque qualquer uma delas os esfola vivos todos os dias. Então, há que denunciar, há que boicotar, há que constranger cada um desses que jogam com a vida e com a saúde das pessoas. E eles o fazem sem dó.

O agronegócio invade terras, mata índios, rouba pequenos proprietários, escraviza, prostitui, mata trabalhadores sem-terra. Tudo em nome do lucro, de uns poucos. Basta que se observe o tal do trabalho agregado, quando o produtor produz na sua terra a matéria prima que a grande empresa vai comprar para fazer sua mercadoria. As famílias trabalham de sol a sol, não têm direitos, estão à própria sorte e se algo sai errado, precisam arcar com todo o prejuízo. É quase uma servidão, ainda que mascarada.

Então, não há que ter piedade dessa gente que hoje enfrenta a fúria dos golpistas. Eles não são os bonzinhos só porque eram aliados de Lula. Eles aproveitaram a onda e ficaram mais ricos. Muito pouca coisa do “projeto nacional” petista chegou à maioria da população. Migalhas. Importantes, é fato. Pois, afinal, tirar 40 milhões de pessoas da situação de fome não é brincadeira. Mas, não deixaram de ser migalhas. Afinal, a gente não quer só comida, a gente quer saúde, diversão, balé…

Há o risco de essas empresas quebrarem e colocarem na rua da amargura milhões de trabalhadores? Não creio. Pode ser que haja algum momento de queda nas vendas, uma perda aqui, outra ali. Mas, as negociações no tapetão já devem estar acontecendo, e os endinheirados se entendem. Muita gente vai perder, é claro. E não serão os empresários. A corda sempre estoura nas mãos dos trabalhadores.

Certamente milhares de produtores, principalmente os integrados, serão prejudicados. Mas ocorre que eles são prejudicados hoje, com esses patrões. Do mesmo jeito. Com esses, nacionais, ou com as multinacionais que virão no seu lugar, tudo seguirá como sempre. Exploração, exploração e exploração. Alguns ganham mais, outros menos, mas todos vivem esse processo de servidão mascarada. Não é o que podemos comprar com o dinheiro do salário que nos faz menos ou mais explorado. Seja como for, os que detêm os meios de produção estão sempre roubando os trabalhadores.

Então, o que podemos tirar de lição de um caso como esse? Primeiro: não basta a um governo – que se diz progressista – se unir com alguns grupos da burguesia nacional esperando lealdade na hora do “pega pra capar”. Não há lealdades no mundo do capital. A história está aí para mostrar, caso após caso. Toda vez que os trabalhadores se uniram com a burguesia para tentar conquistar algo juntos, foram traídos e abandonados no meio do caminho.

Segundo: o agronegócio latifundista não é uma boa opção para o desenvolvimento nacional e muito menos para a segurança alimentar das pessoas. Essa gente comanda uma indústria, não a produção de comida. É indústria que produz mercadoria que é vendida pelo maior preço possível com o menos custo de produção e com o roubo do trabalho dos trabalhadores. Quem produz comida no Brasil é o pequeno e o médio produtor. E esses estão aí, como sempre, afogados pelas imposições da grande indústria agropecuária.

Terceiro: é preciso construir uma proposta verdadeiramente nacional de produção e geração de riqueza. Não essa que foi tentada por Lula, de engordar indústrias e fazendeiros locais, sem um projeto popular de nação. Mas uma construída pelos trabalhadores, unificados com os camponeses que verdadeiramente produzem alimento e podem ser ganhos para um projeto de país.

Para isso é preciso trabalho, muito trabalho. Mas o campo está aí, aberto e preparado. A crise das empresas de carnes não vai durar muito. Já, já as emissoras de televisão, as mesmas que derrubam, às erguem. Basta que sejam bem pagas. E os trabalhadores, que no capitalismo, de um modo ou de outro sempre saem prejudicados, haverão de levantar. Esse furacão que está passando pelos grandes frigoríficos precisa servir de alavanca  para a consolidação da velha aliança operário/camponesa, sempre tão necessária.

Hoje, no espaço da luta pela terra, são os trabalhadores rurais sem-terra que formam a ponta-de-lança, um pouco adormecida. É o momento de reforçar as grandes lutas, unificar com os pequenos produtores, constituir um novo modo de organizar a vida, retomar a terra.

Os tempos de arar já se foram. É hora de fazer brotar a semente.