Através do espelho: Richard Morse e a Ibero-América

O historiador norte-americano Richard M. Morse nasceu em 1922, Nova Jersey, e faleceu em 2001, em Porto Príncipe, Haiti. Sua trajetória acadêmica foi heterogênea: professor em Yale, secretário do Latin Amerian Program do Wilson Center e diretor da Fundação Ford, instituição que durante a década de 1970 patrocinou pesquisas norte-americanas sobre a América Latina.

Antonio Candido, de quem Morse foi amigo, lhe chamou de WASP (White, anglo-saxan and protestant – branco, anglo-saxão e protestante) incomum. Por essa peculiaridade biográfica, talvez, Morse foi um pesquisador norte-americano que olhou a América Ibérica não como terra exótica, mas, como resposta à crise do mundo moderno e aos problemas do Ocidente, principalmente, o Novo Ocidente.

Em “O espelho de Próspero: cultura e ideias nas Américas” traduzido e lançado no Brasil em 1988, pela Companhia das Letras, Morse ensaia uma comparação entre a Anglo-América e a Ibero-América, dois mundos, segundo ele, distintos mas com uma história comum. Assim, concluindo o livro, escreve:

Num mundo em que a população deve chegar a seis ou sete bilhões de almas no ano 2000 e talvez o dobro em 2050, em que o nomadismo afeta tanto os deserdados como os executivos, em que o sonho burguês da casa própria com jardim se desvanece, em que as elites têm de se proteger atrás de burocracias labirínticas contra as massas inoportunas, em que as ideologias racionalistas cedem ante os cultos mistagógicos, em que o impulso de curiosidade intelectual se debilita, em que os gigantescos Estados nacionais se tornam impotentes e erráticos por falta de fibra – num mundo assim, cabe pensar se alguma recompensa, ou até mesmo incerta “liderança” mundial, não está reservada a um povo que conserve a capacidade de visualizar e refletir sobre sua própria condição, a um povo que, no espírito de Vitória e Suárez, consiga enxergar uma lei natural para o mundo em sua diversidade, ao invés de defender, no espírito de Hobbes e Locke, uma fórmula mecanicamente repetitiva de direitos naturais egocêntricos. Mas aqui falamos de décadas, talvez de séculos, não de anos.

O espelho de Próspero dá a impressão de acabar nisso, um futuro imaginado e, certamente, pouco ou nada animador. Porém, o propósito de Morse é “ver se a civilização ibero-americana, que evidentemente possui identidade histórica, tem alguma mensagem para o nosso mundo moderno”. E, nesse sentido, o mundo que se apresenta é onde o neoliberalismo ganha espaço, acelerando, ainda mais, a precarização do American way of life que se espalhou aluvionalmente pelo globo terrestre, principalmente na Ibero-América, a parte do Novo Ocidente, que, por mais de duzentos anos, olhou para um espelho que invertia qualquer semelhança com a Anglo-América.

Morse, numa perspectiva comparada, analisa a “Pré-história” da colonização. Constrói, assim, a trajetória de ideias que, na Europa, influenciariam a formação do Novo Mundo, optando por uma explicação evolucionária da história que transforma essa experiência europeia numa preparação que nos leva à “História” do Novo Mundo.

Assim, após um capítulo discutindo as opções europeias, Morse discute na segunda parte de seu livro a forma das ideias dentro da América. Do momento da “Ilustração”, passando pelo liberalismo e pela democracia até a abertura ao marxismo, a Ibero-América será o lugar em que todas essas correntes filosóficas se encontram e produzem soluções aos problemas do mundo moderno.

Em certos momentos, chegam a ser exageradas as comparações estabelecidas por Morse, contudo, a cadência de sua discussão põe um tema, ainda hoje, válido: qual o lugar da Ibero-América nesse Novo Ocidente? Sem ter respostas conclusivas, o ensaio de Morse é um trânsito por ideias que quebram identidades comuns, aquela imagem que nos acostumamos a ver no espelho.

Fundamental para pensar a Ibero-América no mundo moderno, vale ler Morse por suas ideias como também pelas investidas inteligentes e imaginativas que seu livro nos proporciona – cada vez mais raras em nosso tempo.