A Lagoa Encantada dos Xavante

A lagoa encantada dos Xavante: lugar de extrema beleza e lar de mistérios. Este ano, como membro de uma comunidade Xavante, tive algumas oportunidades de visitar esse lugar místico e em todas elas fiquei maravilhado. O local, guardado pelos xavante, é o centro de diversas polêmicas como estudos em ufologia e a pretensa (e indevida) especulação para exploração turística. Espero que os guerreiros xavante possam continuar protegendo e guardando todas as belezas e mistérios que ali existem, mantendo-a longe da ganância e da cobiça do não-índio. Assim seja, assim é!!!

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O mito da lagoa encantada
por Elias Januário

A lagoa encantada é uma lagoa cuja água tem um tom azul forte, localizada no município de Campinápolis, estado de Mato Grosso, na Terra Indígena denominada Parabubure, pertencente ao povo indígena Xavante, que na língua materna desta etnia é chamada de ‘U’u‘, sendo sagrada para esses indígenas.

O povo Xavante consiste na etnia mais numerosa do estado de Mato Grosso, cuja língua falada pertence à família Jê e ao tronco Macro-Jê. Autodenominam-se A’uwe (que significa povo autêntico), sua presença tem sido registrada desde o século XVIII e têm resistido ao longo dos séculos ao contato com os não índios, migrando por diversas regiões, principalmente nas imediações do rio das Mortes.

Segundo contam os índios mais antigos da região, essa lagoa é encantada e sagrada, porque segundo os seus antepassados narravam que no fundo de suas águas viviam pessoas como eles, que habitavam este espaço.

Conforme narram os anciãos, há muitas décadas passadas, um grupo de mulheres foram coletar frutas nas proximidades da lagoa, quando avistaram várias cabaças enfeitadas flutuando sobre a água. Esses objetos chamaram a atenção das mulheres que decidiram entrar na lagoa e recolher as cabaças delicadamente decoradas.

No entanto, quando começaram a recolher as cabaças todas as mulheres foram puxadas para o fundo da lagoa e nunca mais voltaram para suas aldeias. Dizem que os donos da lagoa pegaram as mulheres para que ficassem com eles.

Sentindo a falta das esposas os homens foram até a beira da lagoa e realizaram várias cerimônias na esperança de que as esposas retornassem para a superfície. Mas todas as tentativas foram em vão.

Nem mesmo no período de seca era possível ver o fundo da lagoa ou qualquer vestígio das mulheres que desapareceram. Também a lagoa não possui peixes e sua água não era consumida por nenhum animal ou pessoa que passasse por aquela região.

Foi a partir de então que a lagoa tornou-se encantada para esses indígenas. O fato ali acontecido tem sido contado de geração para geração, tornando-se mais um dos intrigantes e importantes mitos dos índios que ocupam essa região.

Os mitos contados pelos mais velhos na forma de narrativa são fundamentais para que as gerações futuras dominem os conhecimentos tradicionais de seu povo. Também serve de alerta para o respeito e preservação da natureza, como forma de manter o equilíbrio entre a relação do homem com o meio ambiente local.

Elias Januário é antropólogo e historiador e escreve em A Gazeta.