A Biblioteca de Jorge Luis Borges

Para Reinaldo Santos Neves

A epígrafe do conto “A Biblioteca de Babel” (1941), de Jorge Luis Borges (1899-1986), é do livro A anatomia da melancolia (1621 é a data da primeira edição) de Robert Burton. Nela, está escrito: “Através desta arte você pode contemplar a variação das vinte e três letras…”. Abertura do conto, a frase de Burton relaciona-se ao segundo axioma da Biblioteca: a variação de 25 símbolos ortográficos (o ponto, a vírgula, o espaço e as vinte e duas letras) seria suficiente para enumerar o desconhecido.

A Biblioteca se divide da seguinte forma: “O universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas. De qualquer hexágono, veem-se os andares inferiores e superiores: interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável”. O espaço onde estão distribuídos os livros e o conteúdo dentro destes é, também, regular: são, invariavelmente, vinte prateleiras divididas em cinco longas estantes nos hexágonos, menos em dois lados, o esquerdo e o direito, onde há a entrada para dois banheiros. Nessas estantes encontram-se “trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentos e dez páginas; cada página, de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor preta”.

A divisão regular em hexágonos permite que outros desses venham se juntar aos existentes, isso faz com que não haja espaço central na Biblioteca: qualquer um dos hexágonos pode ser o centro. Transparece o interior de um espaço inacessível e interminável em que é possível procurar por algo que, necessariamente, não se encontra. A perfectibilidade espacial da Biblioteca é o que a torna inacessível e, ao mesmo tempo, sua infinitude garante sua existência através de uma experimentação, quase que pessoal. É a inacessibilidade da Biblioteca que produz a constante criação e busca de sentidos num espaço que é, ao mesmo tempo, regular e labiríntico.

Dentro da Biblioteca, Borges é o peregrino que flana em busca livro perfeito. Busca inútil, porque não se concretiza. De um hexágono a outro, olhando minuciosamente todas as estantes e sondando os livros, a vida daquele buscador da perfectibilidade não se concretizará. Prostrado, pela velhice, o peregrino se dissipará no tempo com a morte que se aproxima. Parece que na biblioteca o tempo e o espaço são absolutos, já que ambos só podem ser acessados a partir da crença o de uma fé no infinito.

Soa melancólico o movimento em um espaço que não acaba. Porque, primeiro, a biblioteca existe ab aeterno, ou seja, desde sempre e, segundo, a variação dos vinte e cinco símbolos ortográficos é o que resguarda sua existência. São esses os dois axiomas que garantem a suposta essência da Biblioteca. Nesse tom a eternidade do futuro (que existe desde sempre) e a busca de sentido, dentro dos livros, parecem solucionar as incompletudes da vida. Falacioso crermos que isso é absoluto.

Borges, no conto, reconhece a imperfectibilidade e incompletude humanas. Uma vez que somos a obra de algum acaso e que somente o universo (em sua composição) pode ser obra de algum deus, dentro os vários que existem, a imitação que fazemos da natureza, através da escrita, é só mais uma expressão razoável pela busca de um sentido. É aceitável que a Biblioteca seja total, porém nossas vidas não o são já que “para uma linha razoável ou uma correta informação, há léguas de insensatas cacofonias, de confusões verbais e de incoerências”. É inútil procurar sentido dentro dos livros, uma vez que isso pode se comparar a arte de adivinhar sonhos.

“Quando se proclamou que a Biblioteca abarcava todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade” e com isso todos os problemas da humanidade pareceram estar resolvidos, pois em algum hexágono estaria todo o tipo de solução. Porém, nenhum problema se resolveu e a busca pelos mistérios (a origem da Biblioteca e do tempo) foi sucedida por desmesurada depressão. Houve até aqueles que tentaram, em vão, destruir toda Biblioteca, apagar o que lhes era alheio. A errância por algum sentido se mostrou tão inútil quanto às tentativas de apagar a totalidade da Biblioteca.

A Biblioteca, por não ter centro, é uma heterotopia. Dela, não nos afastamos e nem nos aproximamos, pois ali, já estamos, ao mesmo tempo, dentro e fora. Nela, o tempo e espaço, ao invés de relativos, são absolutos. Lugar da eternidade, a Biblioteca de Babel não pode ser vista como uma utopia porque está aquém de ser inalcançável. Se a cada passo que damos, dentro dela, nos movemos para outro hexágono, estamos, então, fadados a flanar, incondicionalmente, por um espaço que ao mudar, muda tudo o que está ao redor.

A Biblioteca existe por ser imperfeita e agregar a si as imperfeições existentes, ao invés de apagá-las. Enquanto as utopias são ambientes sem lugar real, as heterotopias são vivenciadas pelo que as compõe dentro delas mesmo. É essa costura interna que permite à Biblioteca se misturar com o que ainda não a compõe e ao que está fora. Essa costura infinita garante, acima de tudo, a permanência da Biblioteca.

Se na concepção de Borges, a espécie humana está em vias de extinguir-se, a Biblioteca existirá ad infinitum, agregando e guardando tudo o que existe, até mesmo as imperfeições que nos formariam. Daí a importância de flanar pelos livros e observar o que eles apresentam para o eterno viandante. Não é o ser passivo que caminha pela biblioteca, ao contrário, é o que se mostra ativo, capaz de combinar o que nela está guardado. A Biblioteca que “é ilimitada e periódica” se repete a partir da desordem. Essa é a sua Ordem, ou seja, seus volumes (sempre diferentes) se repetem nesse fervilhar caótico e descompensado do material que compõe o mundo.

Com amálgama de bem e mal é que se constrói uma suposta e falsa natureza humana que se agrega a biblioteca. Triste são aqueles que creem na finitude do mundo e que em algum momento ele possa cessar. A composição feita pelo ser humano, através das relações estabelecidas com o mundo e as coisas permite ter sempre algo novo, que estará presente na Biblioteca de Babel.

Só um flâneur que olha distanciado e indiferente para um mundo supostamente inacessível consegue caminhar por entre seus espaços e tempos, tão diversos e diferentes. Não é a limitação da vida, dada pela duração do tempo e do espaço, que nos compromete, mas o modo mesquinho e arborizado pelo qual resolvemos nos definir. Ao invés de se misturar com as forças que vem de fora, através do desconhecido, resolvemos nos manter em algum hexágonos buscando um sentido único, algo definível para a vida.

Muito cômodo nos expressar pela linguagem e pelo conhecido do que entrar na viagem de estabelecer contato com o diferente, e, caminhar por algo que permita recriar diferentes formas de vida, novas obras de arte a partir de nós mesmos. Se a espécie humana está prestes a se extinguir, urge pensar cada vez mais na possibilidade de agregar o inumano as nossas vidas.

Acessar a Biblioteca é a garantia de que, pelo menos, teremos a certeza de que só é possível produzir o novo a partir da desordem que está presente em nossas vidas, mesmo que de modo latente. E é a heterotopia da Biblioteca que garante essa possibilidade.