108: Memória, afeto e vazio

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A morte e um roupeiro vazio, são os elementos que projetam o roteiro de Cuchillo de Palo de Renate Costa. A marca da ausência física, só não é maior que as respostas, e incógnitas que seu tio Rodolfo deixou. Para sobrinha, sobrou apenas o recontar, de maneira íntima, a história de mais uma vítima que a ditadura deixou na América Latina.

Em sua narrativa, o documentário revive de dentro para fora a ditadura paraguaia.  É contando, ou melhor, reconstruindo a memória do tio homossexual que se percebe a dedicação que a repressão de Stroessner realizou nesse grupo. Um olhar para trás, remexendo no armário vazio da memória de vizinhos e familiares que possuem um vazio incógnito sobre acontecimentos e ações. É um passado truncado, que não se fala, que ainda não se pode mostrar o rosto, que carrega segredos – É mais uma lástima da ditadura. O silêncio que ainda persegue, no qual confissões internas surgem e quando externadas viram o sorriso amarelo, um pigarro, a dúvida, a negação e uma resignação coletiva. As conversas tensas com o pai de Renate, irmão de Rodolfo, são exemplos disso. Fortemente influenciado pela religião e pelos conceitos de valores da família tradicional, o irmão de Rodolfo se personifica nesse cidadão latinoamericano que custa entender os horrores daquele tempo, da dúvida entre fatos e documentos, a negação das violências que ocorreram, e a resignação de se agarrar em verdades empoeiradas e vazias como o armário do irmão morto. Jorge Ruffinelli, descreve assim os momentos de interação entre pai e filha: “Allí la narración puede tomarse su tiempo – que es el de los afectos invisibles – y presentar una notable secuencia de pesca en el río, otra cuando intentan volar un cometa en la calle y otra, aún posterior, de un largo silencio incómodo entre ambos, sentados a la mesa, cuando al fin Renate confiesa su derrota – “Qué difícil es entenderse…” – se levanta y se marcha”. O conflito que abre e fecha, até chegar ao ponto de incredulidade, e as maneiras de resolução dessas conversas entre pai e filha, a própria diretora relatou em entrevista: “Siempre yo quería explorar la aceptación, que sólo se puede dar si el amor es incondicional. Entre padres e hijos el amor suele ser así, pero la vida es compleja, los padres no suelen tener los hijos que sueñan, ni los hijos a los padres que desean, es como un caos organizado que al final funciona bastante bien. El tema está en que a veces, en la búsqueda de la aceptación (o el amor incondicional) uno debe entrar al momento más doloroso. En mi caso, la muerte de mi tío, tan sólo, era algo dolorosísimo y al entrar ahí, es como agarrar un puñal que hace tiempo está metido en el pecho y sacarlo bruscamente, duele, pero al mismo tiempo cura. Ahí aparece la reconciliación, sin un final feliz, porque un documental no es suficiente para revisar todo un periodo de dictadura, de oscuridad, pero por lo menos abre esa herida y la deja así, sangrando”.

E dessa busca incessante, desse revirar interno, de ir e buscar de dentro do peito e da memória os relatos… Parece que desse tanto em estar fechado, estar dentro da casa do tio e da família, a única solução parece prosseguir abrindo as portas olhando para fora. A pandorga feita pelo pai, que Renate ajuda confeccionar, os levam para a rua, buscando o céu. Mesmo com pouca linha, sem muita habilidade, quase sem vento, a ânsia por aquela liberdade é maior – seria resolução, quem sabe. Nas tentativas de alçar voo, na repetição de movimentos, de recriar um outro trajeto, os fios se atam no mesmo passado que lhe projeta – e não se sai do lugar. Sem voar, nem libertar, entre os fios a pipa ainda espera por ventos mais fortes e novas pulsões de vida.

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O relato em primeira pessoa é contundente por não deixar dúvidas sobre a personalidade  do tio Rodolfo, sua forma de co-existir, na sua coibição para estar perto da família, e um sacrificar-se que somente alguns amigos – e agora Renate – entenderam. Porém, a perseguição vivida por Rodolfo, as mortes, e a constante humilhação ainda são realidades para o grupo LGBTI na América Latina. O informe da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos monitorou entre 2013 e 2014 a situação de violência contra pessoas Lésbicas, Gay, Bisexuais, Trans e Intersex (LGBTI), indicou o registro de ao menos “594 personas que eran LGBT, o que eran percibidas como tales, fueron asesinadas, y que al menos 176 fueron víctimas de graves ataques contra su integridad física, aparentemente relacionados con su orientación sexual o su identidad o expresión de género”. Ainda, dados da Unesco indicam que em 2014 ao menos 40% dos homossexuais e 65% dos transexuais na América Latina sofrem violência homofóbica nas escolas. No México, desde 1995, ocorrem ao menos 1.310 assassinatos, no Brasil em 2012, foram registrados 44% de todos os casos de homofobia letal do mundo. Apesar dos avanços sociais, garantia de direitos, e a constante luta pela existência e a invisibilidade, os números deixam um alerta sobre outras histórias sobre o vazio e a  memória.